Quando
a discriminação Social vai de baixo para cima, nos dá uma pálida ideia
de como e de quem rejeita quem. O sofrimento começa, quando percebemos,
que não queremos, ser doutor, não queremos ser rico, achando que o lado
de lá, não é legal. Muitas vezes, nem notamos, que outras classes,
também não se sentem à vontade com as nossas conquistas, muitas vezes,
favorecidas pela nossa posição social.
Nascemos sem a percepção preliminar da consciência social, nossa escala só vai até onde vão nossos pés, olhos e ouvidos.
Não
existe um deus, um modo criador a remeter o homem a acercar aquilo que o
solidifique no bem. Até mesmo a maioria das religiões, prega o livre
arbítrio.
Quem na minha família, quando criança, se preocupava com o mundo?
Nascemos
para ser felizes. Quem daquelas nove crianças da minha casa, se
preocupava em saber, de onde vinham os livros, os lápis, o uniforme
escola, a meia, o sapato? Quem sabia o preço do pacote de café e do
litro de óleo que só dava para três dias?
Onze
pessoas, comiam um quilo e meio de feijão por dia, portanto, quando a
minha avozinha não aparecia para me ajudar eu debulhava 45 quilos de
feijão para o mês . Como sobrevivia uma família com nove crianças que
comia mais de dois quilos de arroz por dia, o que significava sessenta
quilos por mês?
Nos sábados eu e outra amiga,
transformávamos a obrigação em lazer, cada uma em um pilão, escolhendo
as mãos-de-pilão menos bifarpada e apostando para ver quem terminava
primeiro, passávamos o dia naquele tum-tum, parando somente para abanar
com as quibanas o arroz já branquinho e cobertas de palha e cuim de
arroz, mudar a sintonia do rádio que chiava para ouvir melhor as músicas
de Roberto Carlos, Jerry Adriano, Núbia Lafaiete e outros, de forma que
nem víamos o dia passar.
Mas, em havendo aprendizado, não há o que lamentar.
Nascemos
com a nociva abstração do enxergar para além de nós e fazer o
deslocamento para o outro desta forma muitas crianças da Vila não
prestavam atenção, que no caminho para a escola havia casinhas que
ficavam com as portas e janelas escancaradas e que olhando da rua dava
para ver o vazio, a falta de uma mesa, de uma cadeira e que nas calçadas
estavam crianças descalças, despenteadas, só de calcinha, ou shorts,
amarrados por um cordão, abaixo de suas barrigas inchadas de vermes, nos
olhando com seus olhos compridos de fome e certamente muita tristeza de
não fazer parte do grupo de os alunos passando para a escola.
De
alguma forma, aquelas crianças, banhadas e alimentadas, vestidas em
seus uniformes gastos, carregando seus poucos livros em baixo do braço a
caminho da escola, representavam o futuro. Era o quadro das crianças
felizes, que tinham pai e mãe Um pai que se queimava ao sol ardente na
roça trabalhando sozinho para dar-lhes o sustento e mãe em casa para
cuidar delas.
Nosso horizonte de tempo e espaço era
muito pequeno de cima para baixo, não percebíamos a disparidade social,
envoltos na já tão inserida questão histórica em si já reconhecida, que
fomenta a clara separação social.
Como entender a questão em sintonia do sentido do outro ser?
Ver
outras crianças mais carentes que nós mesmas, era tão comum, tão
aceitável, que não víamos a discriminação de cima para baixo, quando
elas não eram convidadas a brincarem com a gente, não estavam nos
festejos, e não iam a escola. Vivíamos na mesma vila, na mesma rua,
juntos, mas, separados. Subjetivamente, não ter acesso a Tv, era vantajoso.
Bastou
irmos morar na cidade e ter que estudar e conviver com uma classe mais
abastada, ter acesso a um aparelho de Tv, para começarmos a ver
claramente a nossa pobreza, e a nua e crua separação social.
Agora estávamos em uma situação em que a pergunta de quem éramos filhos e onde morávamos era feita pra nos excluir.
Era
imprescindível proceder cavalgadas sobrevoando tudo o que achávamos
ser, até então. Ter tido um pai honrado, ter sido melhor aluno(o), na
escolinha do sítio, não era moeda de troca no mundo onde importante era o
ter.
Foi necessário fazermos uma nova
identificação de nós mesmos a partir do impessoal. Eramos uma sociedade,
dos sem casa, dos que moravam nos barracos pertencentes a outra casta.
Uma
sucessão de conceitos negativos, nunca antes notados , agora emergiam
em figuras agressivas onde ter uniforme gasto, livros reutilizáveis, e
estudar em escola pública, sem mochila e tênis da moda determinava com
quem íamos conversar, andar e em especial namorar.
O
cinema para nós, era na segunda e terça, e abaixo de nós havia outra
casta de jovens que tinham que se contentar em apenas ver os cartazes. Pessoas
que comiam tatus, pacas e matavam onças, só pelo prazer tinham os
pobres tais como animais a quem só não matavam para comer, mas, suas
vidas não eram mais importantes que as dos bichos.
Ao
perceber falta do estreitamento solidário entre os povos em vez de
refutarmos o improbo, damos o rebote fazendo a discriminação de baixo
para cima. A humanidade se associa em grupos de
baixos, e grupos de altos, no meio fica uma classe de desejantes de
subir, apavorados de descer, e desta fazíamos parte.Rejeitados
dos dois lados, pessoas tornam-se inseguros e trancam suas portas
afetivas para se protegerem e vão minguando a coragem até que o ser
deixa de ser. Porém o mau que nos faz conhecer a verdade é o impulso para subida.
Alguns
mais afortunados subiram alto, outros mais esforçados apenas
conseguiram chegar lá, os solidários se atrasaram tentando levar consigo
o mundo. Mas, são daquelas experiências originais que provém o que somos hoje. Precisamos
escolher e nos encaixarmos de um lado sabendo que são as nossas
atitudes que determinam e nos dão o conceito que nos afere o direito ao
grupo social intitulado “ humanos”
Doralice Segelke
Hamburgo, Alemanha, 01.10.2021