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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Botões - Por Wan Lucena

Os botões se abriram um a um

A pele macia e o dorso em curvas sinuosas

A boca carmim desejosa

A respiração essência tão agradável 

Suspiros em carnes tremulas

A unidade da lascívia 

Nervos enrijecidos 

O movimento das arvores da alameda

A sincronia com os movimentos de cá dentro

A invasão do exército de homem só

A cidadela foi sitiada 

As muralhas foram ao chão 

A donzela se estremece

Frenesi

Estupor 

Transe

Lua em céu estrelado

Noite que não acabe

O amor seja eterno

A cidadela está protegida

Muralhas reconstruídas

Jardins em flor

Fontes a jorrar

A cidadela está protegida

A donzela se estremece

Os botões se abrem

Lábios se encontram

Os botões…


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Carne Santa - Por Wan Lucena

Comi todo mundo

Todo mundo me comeu

Todo mundo se comeu

Ninguém era dono de ninguém 

Era carnaval

Era bacanal

Nem era real

Era mesmo só poesia 

Banal

E era carne fresca cheirando a sangue

E sei que também fui servido naquela mesa farta

Não sei se meu sabor era doce ou amargo

Mas me saborearam

E lamberam-se beiços e dedos

E nesse lambe-lambe

Lambi cavidades e protuberâncias mil

Sem nojo

Sem repulsa

Todo mundo se deu bem 

Voltei para casa farto 

Quase a explodir 

Fui glutão 

Pierrôs e Colombinas se empanturravam

E me provaram o sabor

E lhes provei seus sabores

Para trás apenas o rastro branco dos empoados

Nas velhas ruas de ladeiras íngremes 

As janelas estavam fechadas

Todos estavam no bloco

Era carnaval

O carnaval nosso de cada dia nos dai hoje

Pelos séculos dos séculos 

Amém!

E veio a quarta-feira de cinzas

Na matriz a hipocrisia escancarada nas caras surradas

Pedaços de de pó ainda caiam da pele sem banho

Marcada pelos puxões e chupões 

Deus perdoai-nos

Mas a carne é que vale

Enquanto vivo, vivo na carne

Enquanto carne, estamos vivos

Aquele padre ainda essa noite passada

Foi colombina