Foi
em umas férias da escola, depois de seus afazeres domésticos que Lili,
procurando crianças para brincar à tarde, foi comedida de uma repentina
tomada de consciência ao perceber que no engenho e olaria do seu pai,
havia crianças que não tinham férias pois nem sequer estudavam, tampouco
tinham horários para brincarem.
O
pai de Lili, era o dono das terras, que contratava o feitor, que
contratava o trabalhador. Então havia, a menina filha do dono das terras
o menino filho do feitor e a filhinha do trabalhador.
O
pai de Lili explicava-lhe que culpa era do Governo e que devíamos dar
graças, pelas terras que tínhamos e por poder oferecer trabalho para
famílias tirarem o sustento para a boca seca e abafarem o ronco do
estômago.
As famílias
encontravam-se na porteira da entrada do sítio, davam-se bom dia
sorrindo, separavam-se na forquilha da vereda que levava umas para o
canavial, outras para o engenho e outras para a olaria, cada uma para
seu viver, no espaço do mapa dos destinos para elas designados. Parecia
não haver infelicidade naqueles que pelo menos, tinham um trabalho.
Lili
trabalhava a manhã inteira ajudando a mãe nos serviços domésticos que
eram muitos para a sua idade, só tinha liberdade para brincar depois de
varrer e arrumar a enorme casa e quintal lavar louças, arear panelas e
alumínios até ficarem brilhando, dar banho alimentar e botar para dormir
as irmãs pequenas.
Os
anjos do céu trataram de unir três daquelas crianças que comiam manga
debaixo dos mangueirais. Quando perceberam, já era uma tríade que mesmo,
vindas de situações diferentes, tinham uma profunda empatia..
Uma
bonequinha de cristal que tinha muito orgulho do seu pai e o
acompanhava nas festas da Igreja, trajando lindos vestidos de voil
rendados, um soldadinho de cristo todo empetecado de bermuda bem
engomada, camisa de gola, colete e boina em tecido xadrez, que ia para a
igreja nos domingos, somente para a gradar o grande amor de sua vida a
sua mãe e uma bonequinha de pano, que só tinha um vestido de chita
florida e sonhava com tamancos babucha, apaixonada pelo pai, tanto que
preferia dormir ao lado dele no barracão da olaria.
Nas suas tardes de folga a bonequinha de cristal aparecia na olaria querendo brincar.
A fim de que sobrasse tempo para brincarem juntos ela ajudava os coleguinhas a terminarem mais cedo, as tarefas na olaria.
O trabalho era pesado, corrido e de movimentos repetitivos sob um sol ardente. Aquelas
famílias e suas crianças, ficavam embuçadas de barro vermelho,
*liguenta, aspirando a fumaça do crepitar dos galhos verdes no fogo das
caieiras o suor caindo pela testa o dia inteiro.
Foi
ali que Lili descobriu que havia crianças que trabalhavam mais
duramente que ela. Muito disposta, Lili aprendeu a enquadrar tijolos nas
formas e encantou-se pela arte de moldar vasos de cerâmica.
As
brincadeiras dos três eram ao ar livre correndo atrás de borboletas, ou
fazendo piqueniques regados a inocência! Lili trazia arroz, sardinhas e
ovos e outros enlatados, a tríade colocava numa trempe sobre brasas
panelinhas de barro, feitas por elas próprias e cozinhavam e
banqueteavam-se.
Passaram-se
anos o mundo deu voltas a Terra girou sobre o próprio eixo e agora
aquelas três crianças que cortaram os oceanos de seus destinos,
reencontraram-se novamente.
Hoje
Lili acha que crianças têm ajuda dos extraterrestres, senão não fariam
um trabalho tão exaustivo, dia a dia mês- a -mês, ano- após ano, sem
sucumbirem ao desânimo e por desgosto e definharem.
O
mundo não via aquelas três crianças, não havia um olhar de compreensão.
Era o milagre da Natureza protegendo crianças, em uma condição
inóspita, onde só a espécie mais forte sobreviveu.
Lili,
sequer teve uma boneca, era sujeita a cumprir a sina já pré
estabelecida antes de nascer! Tinha que ajudar a cuidar de sete homens,
crescer casar-se e repetir o destino de sua mãe.
Nem
um olhar de cuidado com aquelas duas crianças na olaria, sem tempo para
brincarem e que em vez de irem a escola, amassavam o barro, molhado com
o suor de seus frágeis corpinhos, protegidos do sol ardente, apenas com
o xaile de seus próprios fados.
Hamburgo 10.10.202

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