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segunda-feira, 11 de outubro de 2021

A Tríade de Crianças na Olaria - Por DoraliceSegelke

Foi em umas férias da escola, depois de seus afazeres domésticos que Lili, procurando crianças para brincar à tarde, foi comedida de uma repentina tomada de consciência ao perceber que no engenho e olaria do seu pai, havia crianças que não tinham férias pois nem sequer estudavam, tampouco tinham horários para brincarem.
 
O pai de Lili, era o dono das terras, que contratava o feitor, que contratava o trabalhador. Então havia, a menina filha do dono das terras o menino filho do feitor e a filhinha do trabalhador. 
 
O pai de Lili explicava-lhe que culpa era do Governo e que devíamos dar graças, pelas terras que tínhamos e por poder oferecer trabalho para famílias tirarem o sustento para a boca seca e abafarem o ronco do estômago.

As famílias encontravam-se na porteira da entrada do sítio, davam-se bom dia sorrindo,   separavam-se na forquilha da vereda que levava umas para o canavial, outras para o engenho e outras para a olaria, cada uma para seu viver, no espaço do mapa dos destinos para elas designados. Parecia não haver infelicidade naqueles que pelo menos, tinham um trabalho.

Lili trabalhava a manhã inteira ajudando a mãe nos serviços domésticos que eram muitos para a sua idade, só tinha liberdade para brincar depois de varrer e arrumar a enorme casa e quintal lavar louças, arear panelas e alumínios até ficarem brilhando, dar banho alimentar e botar para dormir as irmãs pequenas. 
 
Os anjos do céu trataram de unir três daquelas crianças que comiam manga debaixo dos mangueirais. Quando perceberam, já era uma tríade que mesmo, vindas de situações diferentes, tinham uma profunda empatia..

Uma bonequinha de cristal que tinha muito orgulho do seu pai e o acompanhava nas festas da Igreja, trajando lindos vestidos de voil rendados, um soldadinho de cristo todo empetecado de bermuda bem engomada, camisa de gola, colete e boina em tecido xadrez, que ia para a igreja nos domingos, somente para a gradar o grande amor de sua vida a sua mãe e uma bonequinha de pano, que só tinha um vestido de chita florida e sonhava com tamancos babucha, apaixonada pelo pai, tanto que preferia dormir ao lado dele no barracão da olaria.
 
Nas suas tardes de folga a bonequinha de cristal aparecia na olaria querendo brincar. 
A fim de que sobrasse tempo para brincarem juntos ela ajudava os coleguinhas a terminarem mais cedo, as tarefas na olaria. 

O trabalho era pesado, corrido e de movimentos repetitivos sob um sol ardente. Aquelas famílias e suas crianças, ficavam embuçadas de barro vermelho, *liguenta, aspirando a fumaça do crepitar dos galhos verdes no fogo das caieiras o suor caindo pela testa o dia inteiro.

Foi ali que Lili descobriu que havia crianças que trabalhavam mais duramente que ela. Muito disposta, Lili aprendeu a enquadrar tijolos nas formas e encantou-se pela arte de moldar vasos de cerâmica. 

As brincadeiras dos três eram ao ar livre correndo atrás de borboletas, ou fazendo piqueniques regados a inocência! Lili trazia arroz, sardinhas e ovos e outros enlatados, a tríade colocava numa trempe sobre brasas panelinhas de barro, feitas por elas próprias e cozinhavam e banqueteavam-se.

Passaram-se anos o mundo deu voltas a Terra girou sobre o próprio eixo e agora aquelas três crianças que cortaram os oceanos de seus destinos, reencontraram-se novamente.

Hoje Lili acha que crianças têm ajuda dos extraterrestres, senão não fariam um trabalho tão exaustivo, dia a dia mês- a -mês, ano- após ano, sem sucumbirem ao desânimo e por desgosto e definharem.

O mundo não via aquelas três crianças, não havia um olhar de compreensão. Era o milagre da Natureza protegendo crianças, em uma condição inóspita, onde só a espécie mais forte sobreviveu. 

Lili, sequer teve uma boneca, era sujeita a cumprir a sina já pré estabelecida antes de nascer! Tinha que ajudar a cuidar de sete homens, crescer casar-se e repetir o destino de sua mãe.

Nem um olhar de cuidado com aquelas duas crianças na olaria, sem tempo para brincarem e que em vez de irem a escola, amassavam o barro, molhado com o suor de seus frágeis corpinhos, protegidos do sol ardente, apenas com o xaile de seus próprios fados.

 

Hamburgo 10.10.202


 

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