Na casinha umilde de telhas quebradas, pelos buracos no telhado ela vê a lua. Por causa da goteira, a rede sempre precisa mudar de lugar. Na cozinha o fogão ainda é de lenha e as panelas limpinhas tentam a dignidade mesmo que vazias. A boca está sem dentes e as rugas são tão profundas quanto a sua solidão. Já curvada pela idade, ainda busca água em latas, no rio que fica lá embaixo daquela ladeira, seu moço! As chinelas de cabresto quebrado, receberam um prego para lhe servir por calçados aos pés rachados. A fumaça trespassa as telhas apenas uma vez ao dia. Ela comerá feijão temperado apenas com sal e, para acompanhar, apenas farinha seca. Faz tempos que não pode comprar temperos ou óleo. Arroz, ela usa o xerém, muito mais barato e que se deveriam dar às galinhas por ração. Tantas histórias ela tinha para contar, mas já não mais se lembra delas. Ela não teve filhos e sempre morou sozinha. Nunca teve parceiro ou marido. Ainda assim, guarda certa doçura. Ela sabia que seu fim seria mesmo assim. Não lutou contra ele já que concentrou todas as energias na sobrevivência. Entretanto, com a miséria jamais se acostumou. Mas, se rendeu depois de tanta luta inglória. Semi analfabeta, sempre viveu com quase nada. E busca na natureza próxima o que precisa para a sobrevivência. Quando era a época do pequi, se embrenhava no carrasco e voltava com o cofo cheio. Hoje já não mais tem forças para se embrenhar nas matas e apenas espera a morte. Ela catava tudo, desde brotos de cajá a cascas de inharé. Com muita vergonha, escondida pela penumbra, se escondia dos olhares da hipocrisia enquanto, madrugada a dentro, procurava restos nos lixos alheios. Ela agora espera apenas a boa hora! A morte lhe será por benção. Será encontrada ressequida ou putrefata. Talvez algum ser humano, desses em escassez, lhe cave 7 palmos de terra e lhe deposite junto à mãe terra. Senão, terá ao menos a lua a lhe olhar pelo buraco no telhado enquanto escaravelhos dela se alimentam.
Fragmentos peneirados das memórias afetivas de três autores que residem em diferentes países, unidos originariamente pela massa do mesmo barro massapê
quarta-feira, 24 de novembro de 2021
Asas de Bananeira - Por Lu Mota
Dizer tanto, dizer quase tudo em pouco tempo e espaço, viajar um enorme país e suas áridas dores, seus cortes, sua fome, suas misérias e dores...
Sobreviveremos a elas?
... ou nos restará apenas o voo cego, com asas de bananeira, rumo ao fundo do abismo?
Senhor poeta, bravo!
*Um comentário numa portagem de Facebook ao multi artista Celso Pires Araújo
https://www.facebook.com/100001596161626/posts/4848658141864010/
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