O barro gruda nas pernas e pesa no pisar alternado e incessante das canelas infantis. O massapê cortado do barranco, molhado no dia anterior com as aguas do Rio Corda. Incontáveis cangas aos ombros frágeis e impúberes a subir e a descer a ladeira. A serragem da madeira é o combustível que ajudará a queimar o tijolo quando na caieira.
Depois de muito suor derramado, os meninos, esgotados, se recolhem em suas humildes e dormirão com vaga-lumes a lhes voar no estômago vazio. Um arroz sem olho, apenas agua e sal e umas piabas assadas que eles mesmo pescaram no rio e lhes serviu por jantar. Piabas assadas são verdadeira iguaria, eu bem sei. Entratanto, quando por meses a fio a mesma coisa, sem sequer óleo para fritá-las, deixa de ser iguaria e passa a ser apenas um "matar a forme", um "encher o bucho".
Na olaria trabalham meninos ainda mais pobres. O pai é homem forte e de olhar vivo, humilde e esquivo. Queimado de sol mais parece uma estátua em madeira de lei. Músculos tesos em constante movimento. Verdadeira máquina humana que trás latente um coração desesperado pela sobrevivência própria e de sua prole.
O filhos, assim como eu e meu irmão, igualmente trabalham na mesma labuta. O mais incrível é aquela menina de sorriso fácil e olhos que mais parecem faíscas. Pobre, pobre de marré decí, guarda as vergonhas em calcinha de morim lameado de massapê e presa por um cordão na cintura já que elástico era luxo.
Em um carro último modelo, chega o comprador dos milheiros de tijolos. Traz sua filha de cachos feitos que mais parecem flores amarelas prontas para um beijo de mangangás. Ela desce com seus sapatos limpos e chama a menina de calcinha de morim amarrado por cordão à cintura para brincar.
- Mas brincar de quê no meio desse lamaçal que é essa olaria?
A menina rica faz perguntas e diz não entender porque ela tanto tem e aqueles meninos sequer podem brincar.
Os meninos oleiros ficam parados, atolados com o barro aos joelhos, a olhar a menina de vestido branco como neve, a entrar no seu carro enquanto lhes dá um adeusinho com um sorriso de que já a tudo esqueceu e se vai para o seu mundo tão melhor que o deles.
Mas a menina rica também tem a sua história. E sofre todo o preconceito das carolas desalmadas que não suportam seus maridos a olhar para aquela menina. De rica fica pobre. De pobre ficou rica. Caiu e se levantou tantas vezes que calejou. Ela está de pé e com bases muito bem amalgamadas a viver sonhos mundo à fora.
Os meninos saíram do atoleiro e se lançaram para a vida a remar barco sem rumo. Com uma fé tão grande e uma vontade desesperada remaram, e remaram, e remaram. Remaram tanto que chegaram à outra margem de um oceano.
Com as pernas eternamente lameadas de massapê, vivem as delicias do mundo. Expõem orgulhosos as marcas que trazem e usam o barro impregnado nas memórias para escrever belíssimas histórias.
Wan Lucena
Lisboa, 09/10/2021
