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sábado, 9 de outubro de 2021

O Outro Lado da Discriminação Social - Por Dora Segelke

Quando a discriminação Social vai de baixo para cima, nos dá uma pálida ideia de como e de quem rejeita quem. O sofrimento começa, quando percebemos, que não queremos, ser doutor, não queremos ser rico, achando que o lado de lá, não é legal. Muitas vezes, nem notamos, que outras classes, também não se sentem à vontade com as nossas conquistas, muitas vezes, favorecidas pela nossa posição social.
Nascemos sem a percepção preliminar da consciência social, nossa escala só vai até onde vão nossos pés, olhos e ouvidos.
 
Não existe um deus, um modo criador a remeter o homem a acercar aquilo que o solidifique no bem. Até mesmo a maioria das religiões, prega o livre arbítrio.
 
Quem na minha família, quando criança, se preocupava com o mundo?
 
Nascemos para ser felizes. Quem daquelas nove crianças da minha casa, se preocupava em saber, de onde vinham os livros, os lápis, o uniforme escola, a meia, o sapato? Quem sabia o preço do pacote de café e do litro de óleo que só dava para três dias?
 
Onze pessoas, comiam um quilo e meio de feijão por dia, portanto, quando a minha avozinha não aparecia para me ajudar eu debulhava 45 quilos de feijão para o mês . Como sobrevivia uma família com nove crianças que comia mais de dois quilos de arroz por dia, o que significava sessenta quilos por mês?
 
Nos sábados eu e outra amiga, transformávamos a obrigação em lazer, cada uma em um pilão, escolhendo as mãos-de-pilão menos bifarpada e apostando para ver quem terminava primeiro, passávamos o dia naquele tum-tum, parando somente para abanar com as quibanas o arroz já branquinho e cobertas de palha e cuim de arroz, mudar a sintonia do rádio que chiava para ouvir melhor as músicas de Roberto Carlos, Jerry Adriano, Núbia Lafaiete e outros, de forma que nem víamos o dia passar.
 
Mas, em havendo aprendizado, não há o que lamentar.
 
Nascemos com a nociva abstração do enxergar para além de nós e fazer o deslocamento para o outro desta forma muitas crianças da Vila não prestavam atenção, que no caminho para a escola havia casinhas que ficavam com as portas e janelas escancaradas e que olhando da rua dava para ver o vazio, a falta de uma mesa, de uma cadeira e que nas calçadas estavam crianças descalças, despenteadas, só de calcinha, ou shorts, amarrados por um cordão, abaixo de suas barrigas inchadas de vermes, nos olhando com seus olhos compridos de fome e certamente muita tristeza de não fazer parte do grupo de os alunos passando para a escola.
 
De alguma forma, aquelas crianças, banhadas e alimentadas, vestidas em seus uniformes gastos, carregando seus poucos livros em baixo do braço a caminho da escola, representavam o futuro. Era o quadro das crianças felizes, que tinham pai e mãe Um pai que se queimava ao sol ardente na roça trabalhando sozinho para dar-lhes o sustento e mãe em casa para cuidar delas.
Nosso horizonte de tempo e espaço era muito pequeno de cima para baixo, não percebíamos a disparidade social, envoltos na já tão inserida questão histórica em si já reconhecida, que fomenta a clara separação social.

Como entender a questão em sintonia do sentido do outro ser?
 
Ver outras crianças mais carentes que nós mesmas, era tão comum, tão aceitável, que não víamos a discriminação de cima para baixo, quando elas não eram convidadas a brincarem com a gente, não estavam nos festejos, e não iam a escola. Vivíamos na mesma vila, na mesma rua, juntos, mas, separados. Subjetivamente, não ter acesso a Tv, era vantajoso.
 
Bastou irmos morar na cidade e ter que estudar e conviver com uma classe mais abastada, ter acesso a um aparelho de Tv, para começarmos a ver claramente a nossa pobreza, e a nua e crua separação social.
Agora estávamos em uma situação em que a pergunta de quem éramos filhos e onde morávamos era feita pra nos excluir.
 
Era imprescindível proceder cavalgadas sobrevoando tudo o que achávamos ser, até então. Ter tido um pai honrado, ter sido melhor aluno(o), na escolinha do sítio, não era moeda de troca no mundo onde importante era o ter.
 
Foi necessário fazermos uma nova identificação de nós mesmos a partir do impessoal. Eramos uma sociedade, dos sem casa, dos que moravam nos barracos pertencentes a outra casta.
 
Uma sucessão de conceitos negativos, nunca antes notados , agora emergiam em figuras agressivas onde ter uniforme gasto, livros reutilizáveis, e estudar em escola pública, sem mochila e tênis da moda determinava com quem íamos conversar, andar e em especial namorar.
 
O cinema para nós, era na segunda e terça, e abaixo de nós havia outra casta de jovens que tinham que se contentar em apenas ver os cartazes. Pessoas que comiam tatus, pacas e matavam onças, só pelo prazer tinham os pobres tais como animais a quem só não matavam para comer, mas, suas vidas não eram mais importantes que as dos bichos.
 
 
Ao perceber falta do estreitamento solidário entre os povos em vez de refutarmos o improbo, damos o rebote fazendo a discriminação de baixo para cima. A humanidade se associa em grupos de baixos, e grupos de altos, no meio fica uma classe de desejantes de subir, apavorados de descer, e desta fazíamos parte.Rejeitados dos dois lados, pessoas tornam-se inseguros e trancam suas portas afetivas para se protegerem e vão minguando a coragem até que o ser deixa de ser. Porém o mau que nos faz conhecer a verdade é o impulso para subida.
 
 
Alguns mais afortunados subiram alto, outros mais esforçados apenas conseguiram chegar lá, os solidários se atrasaram tentando levar consigo o mundo. Mas, são daquelas experiências originais que provém o que somos hoje. Precisamos escolher e nos encaixarmos de um lado sabendo que são as nossas atitudes que determinam e nos dão o conceito que nos afere o direito ao grupo social intitulado “ humanos”
 
 
Doralice Segelke
 
Hamburgo, Alemanha, 01.10.2021

 

Um comentário:

  1. Escrita cuidadosa, carinhosa e narrativa. Por vêzes chego a realidade e em outras, divago na imaginação. Parabéns a escritora!

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